doi:10.3900/fpj.5.3.168.p
Comparação
entre os níveis de flexibilidade de bailarinos do
sexo masculino e feminino
Daniela
Reys Aubaut
Universidade Castelo Branco/ RJ
Laboratório de Biociências da Motricidade Humana
(LABIMH)
daubaut@terra.com.br
Carla
Mourão Bittencourt
Universidade Castelo Branco/ RJ
Laboratório de Biociências da Motricidade Humana
(LABIMH)
carla.mestrado@uol.com.br
Fernanda
Malafaia Bulgarelli
Universidade Católica de Petrópolis/ RJ
fbulga@compuland.com.br
Mario
Cezar de Souza Costa Conceição
Universidade Castelo Branco/ RJ
Laboratório de Biociências da Motricidade Humana
(LABIMH)
marioceju@uol.com.br
Estélio
Henrique Martin Dantas
Professor Titular do Programa de Pós Graduação
Strictu Sensu em Ciência da Motricidade Humana –
UCB – Brasil
Laboratório de Biociências da Motricidade Humana
(LABIMH)
Bolsista de produtividade em pesquisa CNPq
estelio@fpjournal.org.br
Resumo
Bailarinos estão freqüentemente envolvidos com
treinamento de flexibilidade. A dança é a
arte da performance, executada no espaço e no tempo,
e expressa através dos movimentos do corpo beleza
e plasticidade. A boa técnica necessita de movimentos
mais precisos e leves, exigindo grande mobilidade articular
para garantir a beleza e a perfeição dos movimentos.
Dessa forma, para a garantia de bom desempenho, é
fundamental que os bailarinos possuam níveis de flexibilidade
altos. Este estudo tem como objetivo verificar a diferença
entre o nível de flexibilidade de bailarinos do sexo
masculino e feminino. Foram avaliados por goniometria de
três articulações 22 bailarinos, 11
homens e 11 mulheres (idade média 21,73 ±
5,29; e 15,45 ± 5,68). Pôde-se observar que
o movimento de flexão lombar (FL), flexão
de quadril (FQ) e extensão horizontal de ombro (EHO)
apresentaram diferenças de 5,91º, 8,91º
e 25,09º, respectivamente, entre as médias,
sendo considerada significativa somente a diferença
entre as médias relativas à EHO, em favor
dos homens. Conclui-se que, de acordo com a literatura revisada,
as médias dos movimentos de flexão do quadril
e extensão de ombro encontradas, encaixam-se em uma
classificação de bom a muito bom, sendo que
os valores para flexão de quadril nos homens sobressaíram
aos valores considerados muito bons.
(*) O trabalho atende às “Normas de Realização
de Pesquisa em Seres Humanos”, resolução
n.º 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, de
10/10/96 ( BRASIL, 1996).
PALAVRAS-CHAVE
- ballet clássico, flexibilidade, alto nível.
Comparison
of flexibility levels between male and female ballet dancers
Abstract
Ballet dancers are frequently involved with flexibility
exercises. Good technique demands perfect and light movements,
wich are related with a maximal range of motion. Therefore,
it is fundamental that ballet dancers present high levels
of flexibility. The purpose of this study was to verify
the differences between male and female ballet dancers’
flexibility. The subjects, 11 men and 11 women (age range:
21.73 ± 5.29; e 15.45 ± 5.68) were evaluated
with goniometry of three joints. Lombar flexion, Hip flexion
and Horizontal Shoulder Extension measure¬ments presented
the following results: 5.91º, 8.91º and 25.09º.
According to statistical analysis there was significance
for p< 0.05 only for Horizontal Shoulder Extension (25.09º).
The study concluded that the results were consistent with
previ¬ously conducted studies, and the Lombar flexion
and Hip Flexion values could be considered from good to
very good, according to reference values, although men´s
results exceeded women´s in Horizontal Shoulder Extension.
KEYWORDS
- classic ballet, flexibility, high performance.
Comparación
entre los niveles de la flexibilidad de bailarines del sexo
masculino y femenino
Resumen
Los bailarines tienen que ejecutar frecuentemente un entreinamiento
de flexibilidad. La danza es un arte de desempeño
ejecutado em espacio y tiempo, y expresado atraves de los
movimientos Del cuerpo, de la belleza y plasticidad. Uma
buena técnica necesita movimientos mas precisos y
leves, presentando gran movilidad articular para garantizar
la belleza y perfección de los movimientos. Es fundamental
para garantizar lo bueno desempeño que los bailarines
posean altos niveles de flexibilidad. Este estúdio
tiene como objetivo verificar la diferencia entre el nível
de flexibilidad de los bailarines Del sexo masculino y femenino.
Fueron evaluados por goniometria de tres articulaciones
22 bailarines, 11 hombres y 11 mujeres (edad media 21,73
± 5,29; y 15,45 ±5,68). Se pudo observar que
los movimientos de flexibilidad lumbar (FL), flexión
de cadera (FQ), y extensión horizontal de hombro
(EHO) presentaron diferencias de 5,91º, 8,91º
y 25,09º, respectivamente, entre los medias, siendo
considerada significativa solamente la diferencia entre
las medias relativos a EHO, a favor de los hombres.se concluye
qye de acuerdo com la literatura revisada, las medias de
los movimientos de flexión de cadera y hombro encontrados,
se insertan em uma classificación de Bueno a muy
Bueno, siendo que los valores para flexibilidad de cadera
en los hombres sobrepasaron los valores considerados muy
buenos.
PALABRAS
CLAVE - Ballet clásico, Flexibilidad, Alto
Rendimiento.
INTRODUÇÃO
A origem
da Dança, como é conhecida hoje, remonta à
origem do próprio homem, e pode ser explicada, em
seus primórdios, como a interpretação
dos movimentos e ritmos inerentes ao ser humano. Com a evolução
do Homem, a dança espontânea começou
a ser submetida a regras disciplinares e a assumir um aspecto
formal, passando a ter uma preocupação estética
com os movimentos que, até então, eram naturais
e instintivos ao corpo (CAMINADA, 1999).
A teoria e os métodos de ensino da dança,
em especial do Ballet Clássico não são
recentes, pois sua sistematização data do
século XV ou XVI (CAMINADA, 1999; ACHCAR, 1998).
A partir de então, a prática da dança
foi submetida a uma série de regras disciplinares,
que a tornaram mais compatível com as exigências
da nobreza e dos senhores burgueses da época.
Após pouco mais de um século, as escolas de
dança instituíram o princípio de que
era necessária uma base técnica como pré-requisito
para o ballet. Essa “técnica” consistia
em um forte treinamento para os bailarinos, com regras e
utilização de exercícios adequados
para desenvolvimento do “alongamento” das articulações
e músculos. Portanto, subentende-se que é
fundamental que os bailarinos sejam leves e precisos em
seus movimentos e, ao mesmo tempo, flexíveis. A flexibilidade
consiste em uma qualidade física de extrema importância
para o Ballet Clássico (SOARES, 2003), sendo considerada
até mesmo como um pré-requisito básico
para a execução tecnicamente correta dos movimentos,
visto que a dança, e de forma particular o Ballet
Clássico, envolve movimentos de grandes amplitudes
e o nível de desenvolvimento da flexibilidade determina
em grande parte o sucesso e o bom desempenho dos bailarinos
(DANTAS, 2005).
Essa qualidade física resulta da complacência
ou da elasticidade corporal de determinadas articulações,
e envolve músculos, adaptação de tendões
e plasticidade de ligamentos; segundo Pollock; Wilmore;
Fox (1989) restrições na flexibilidade restringem
a amplitude de movimento.
Objetivo
Este estudo tem como objetivo verificar a diferença
entre o nível de flexibilidade de bailarinos do sexo
masculino e feminino.
Metodologia
Amostra:
Foi constituída de 22 sujeitos, sendo 11 do sexo
masculino e 11 do sexo feminino, com idade média
de 21,73 (± 5,29) e 15,45 (± 5,68), respectivamente,
sendo todos praticantes de Ballet Clássico há
pelo menos um ano.
Avaliação
da flexibilidade
Foi utilizado o protocolo de goniometria proposto pelo LABIFIE
(Dantas, 2005), sendo que na verificação das
medidas foi utilizado um goniômetro de 360º (Lafayette,
USA).
O grau de amplitude articular foi avaliado nas articulações
da coluna, ombro e quadril, nos seguintes movimentos: flexão
lombar, extensão horizontal de ombro e flexão
do quadril.
Análise
estatística
No sentido de caracterizar o Universo Amostral pesquisado
utilizou-se a estatística descritiva, onde foram
calculados: média, desvio–padrão e erro
padrão. E para calcular a homogeneidade da amostra,
foi utilizado o teste Kolmogorov-Smirnov, realizado por
meio do programa SPSS for Windows, versão 12.0. Para
a comparação das amostras foi utilizado o
teste T independente, para verificar a significância
da diferença entre as médias.
RESULTADOS
E DISCUSSÃO
De acordo
com os resultados obtidos a partir da analise estatística,
pôde-se observar que os movimentos de flexão
lombar (FL), flexão de quadril (FQ) e extensão
horizontal de ombro (EHO) apresentaram diferenças
de 5,91º, 8,91º e 25,09º, respectivamente,
entre as médias masculinas e femininas. Sendo assim,
apenas para o último movimento esta diferença
foi considerada significativa para um p < 0,05 (Tabela
1).

Segundo
Jensen & Fisher (1979) apud Dantas (2005), a flexibilidade
de meninas é levemente superior quando comparada
com meninos. O que corrobora Hollmann & Hettinger (1983)
citando a afirmação de Kircher & Gleins
(1967) de que a mulher é, em geral, mais flexível
que o homem. Entretanto, em outro estudo realizado por Araújo
et alli (2002) com 123 adolescentes, sendo 58 meninas, com
idades entre 13 e 18 anos, não foram encontradas
diferenças significativas na flexibilidade entre
os sexos no teste de sentar e alcançar. O estudo
realizado por Okano et alli (2001) corrobora os resultados
apresentados anteriormente. Eles não constataram
diferenças significativas entre os sexos e as etnias
no teste de “sentar-e-alcançar” com 103
crianças pré-púberes entre 8 e 11 anos.
Contrapondo-se aos estudos anteriormente apresentados, Christofoletti
(1986) realizou um estudo com 1230 crianças de ambos
os sexos (614 meninos e 616 meninas), de 10 a 14 anos de
idade e de etnia diferentes. Foram verificadas as flexibilidades
das articulações: escápulo-umeral,
do quadril, coxo-femural, talo-crural e abdução
de membros inferiores. Os resultados indicaram que os meninos
obtiveram valores médios maiores que as meninas,
exceto na articulação do quadril e tornozelo.
Neste estudo, observou-se para os indivíduos do sexo
masculino, um maior grau de flexibilidade nos movimentos
avaliados (Figura 1). No entanto, nota-se que esta diferença
se mostra significativa somente no movimento de Extensão
Horizontal de Ombro (EHO).
Comparando-se os resultados deste estudo com os resultados
encontrados para sujeitos do sexo masculino e feminino por
Freitas, Silva e Dantas (2004), pode-se perceber que as
médias dos movimentos de flexão do quadril
e extensão de ombro encaixam-se em uma classificação
de bom a muito bom, sendo que os valores para flexão
de quadril nos homens sobressaíram-se aos valores
considerados muito bons, no estudo desses autores. Os presentes
achados corroboram estudo realizado por Soares (2003), sobre
o perfil dermatoglífico de bailarinas, que constatou
alto nível de flexibilidade nas articulações
do quadril, ombro e membros inferiores.

Ainda
observando a Figura 1, podemos ressaltar que os valores
encontrados atendem a bons níveis de flexibilidade
para sujeitos que necessitam desta qualidade física
para melhora de sua performance técnica. No entanto,
é importante enfatizar que a prevalência dos
resultados dos homens sobre os resultados das mulheres pode
se dever ao número reduzido da amostra pois, segundo
a literatura revisada, a flexibilidade em mulheres é
geralmente mais acentuada (DANTAS, 2005, WEINECK, 1999).
Pode-se dizer que o fato de os homens terem apresentado
valores superiores aos valores das mulheres pode ter ocorrido
em função do tempo de treinamento, maior da
parte deles. Isto representa uma Limitação
do Método utilizado, já que o estudo não
controlou o tempo de treinamento entre os grupos.
No caso da dança, a boa técnica necessita
de uma boa flexibilidade que permita a execução
de movimentos mais elegantes, harmônicos e com menor
consumo energético. De acordo com Koutedakis (2004),
preconiza-se que para estar apto às demandas das
coreografias e espetáculos, o bailarino deve dar
à capacitação física a mesma
importância que dedica ao desenvolvimento de suas
habilidades específicas.
CONCLUSÃO
De acordo
com Gómez (2004), um bailarino clássico sempre
está em contato com movimentos e posições
extremas, e, para a realização destas, ele
necessita de um treinamento exaustivo. Dessa forma, é
natural que bailarinos possuam níveis de flexibilidade
acima daqueles apresentados pela maioria da população.
Pode-se concluir que o fato de as médias relativas
aos homens, neste estudo, terem sido mais elevadas talvez
se deva aos valores mais baixos de flexibilidade de homens
na população em geral, enquanto que as mulheres
normalmente já possuem valores mais altos que os
homens.
Um acontecimento particularmente interessante, neste estudo,
é o fato de os valores médios registrados
para os homens terem sido mais elevados que os das mulheres.
Apesar disso, embora os valores tenham sido maiores, a única
diferença significativa foi encontrada para o movimento
de Extensão Horizontal de Ombro (EHO). Sugere-se,
portanto, que sejam realizados novos estudos tanto para
verificar a diferença entre os níveis de flexibilidade
de bailarinos e bailarinas, quanto para verificar se realmente
há uma prevalência da flexibilidade relativa
a EHO em homens.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ACHCAR,
Dalal. Ballet: uma arte. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998.
ARAÚJO,
S. S.; OLIVEIRA, H.; PAZ, A. A.; SANTOS, C. A. S. Avaliação
da Flexibilidade de adolescentes através do teste
sentar e alcançar. Revista Digital Vida & Saúde.
Ago/Set. v. 1, n. 1, 2002.
CAMINADA,
Eliana. História da Dança: evolução
cultural. Rio de Janeiro: Editora Sprint, 1999.
CHRISTOFOLETTI,
Adonis E. A. Estudo da flexibilidade em escolares de 10
a 14 anos na cidade de Terezina. Dissertação
de Mestrado. São Paulo: USP, 1986.
DANTAS,
E. H. M. Flexibilidade Alongamento e Flexionamento. 5 ed.
Rio de Janeiro: Shape, 2005.
GÓMEZ,
Álvaro Reina. Problemas de Propriocepción:?
consecuencia o causante de los esguices de tobillo? Aplicación
al Ballet Clásico. EF Deportes.com/ Revista Digital.
Buenos Aires, n. 62. Disponível em: <http://www.efdeportes.com/.
HOLLMANN;
HETTINGER. Medicina do esporte. Manole. São Paulo,
1983.
KOUTEDAKIS,
Yannis; Jamurtas, Athanasios. The dancer as a performing
athlete: Physiological considerations. Sports Medicine.
V.34. n.10, p. 651 – 661, 2004.
OKANO,
A. H.; ALTIMARI, L. R.; DODERO, S. R.; COELHO, C. F.; ALMEIDA,
P. B. L.; CYRINO, E. S. Comparação entre o
desempenho motor de crianças de diferentes sexos
e grupos étnicos. Revista Brasileira de Ciência
e Movimento. v.9, n. 3, p. 39-44, 2001.
POLLOCK,
M, L; WILMORE, J, H; FOX, S. Exercícios na saúde
e na doença. Rio de Janeiro: Medsi, 1986.
SILVA,
E;. FREITAS, W. Z.; DANTAS, E. H. M. Goniometria: valores
de referência nacional de indivíduos do sexo
feminino. Fitness & Performance Journal. Rio de Janeiro,
v. 3, n. 4, Julho/ Agosto 2004.
SOARES,
M. et al. Identificação dos perfis dermatoglíficos
de flexibilidade das bailarinas do grupo de Dança
da UCB/ RJ. In: 18º CONGRESSO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO
FÍSICA. V. 73. Special Edition – ISSN –
0256 – 6419, FIEP/2003.
WEINECK,
J. Treinamento Ideal. São Paulo: Manole, 1999.
voltar